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Sala de (re)tratos

18/Mai/2016 a 09/07/2016

Curadoria: Flávia de Gusmão

O vestido se move como uma vela ao vento. O tecido, cetim, ainda está íntegro, mas amarelado. Costumava ser branco como a neve. A renda, esgarçada, rompeu o compromisso um dia firmado com a perfeição. O tempo faz isso: transforma tudo em outra coisa, às vezes tão outra coisa que a gente pensa que desapareceu. Mas, não, está lá. De outra forma, lá.

Este é o ponto de partida adotado pela artista plástica Suzana Azevedo em sua exposição Sala de (Re)tratos. Ao contemplar a indumentária, pensamos naquela que um dia envergou o traje de alcova – sua avó – especialmente para a noite de núpcias, e enveredamos por mais uma trilha: o sagrado feminino. Os rituais simbólicos de ruptura, física, social, emocional, guardados sob a forma daquele troféu. Um objeto carregado de ressonância, que será ressignificado pelas mãos e olhar da artista.

Na tarefa de recompor suas memórias, Suzana Azevedo recorreu ao baú, aquele móvel no qual guardamos as coisas que, embora tenham perdido espaço para o cotidiano, ainda hesitamos a respeito do seu descarte puro e simples. Guardamo-as fora da vista, mas mantemos intacta a certeza de que elas ali ficarão, quietas, silenciosas, à espera da nossa vontade cíclica de revisitação, de reabastecimento do fluxo fluido de lembranças.

Não abrimos o baú com frequência porque sabemos que, quando o fazemos, o seu conteúdo nos engole. Revolvemos, acariciamos, espiamos, acionamos imediatamente um outro tipo de olhar: o interno. E é quando unimos o observar endógeno como o exógeno – como fez Suzana Azevedo na materialização de Sala de (Re)tratos – que somos lançados para a reação química que gera a metamorfose, o tempo como catalisador.

Nessa sua incursão labiríntica, o tempo se move para trás e para diante, também para os lados. E ela, a artista, nos propõe algumas questões: “O que fazemos de nossas recordações?” Para onde elas nos impulsionam e até que ponto elas nos prendem, imóveis, num mesmo lugar? Como borboletas fixadas por alfinetes.

O caminho proposto por Suzana Azevedo quer nos dizer que, mesmo nas roupas sem corpos e nos espaços aparentemente sem viva alma, persiste a pulsação do existir, tão indiscutível quanto o barulho do inalar e exalar, trilha sonora da vida. Nessa eterna contração e dispersão, coletamos e distribuímos tudo aquilo que nos foi cedido pelo tempo com contrato de comodato na memória. Um dia seremos foto no porta-retratos de alguém. Nossa moldura será, sempre, a transitoriedade paradoxalmente cancelada pela lembrança.

Flávia de Gusmão