
Conciliação
Seu olhar curioso sobre acidade fez Daaniel Araújo encontrar duas esfinges que guarnecem a Loja Maçônica Conciliação, que existe na Rua da Conciliação, Bairro da Boa Vista. Pouca gente sabe onde fica isto, mas é próximo do Beco dos Fotógrafos, e escondido pelos edifícios da Avenida Conde da Boa Vista que encobrem há muito sua fachada. Daniel pintou as duas esfinges e destas obras saiu o título desta exposição, o que lhe dá um sentido muito amplo, pois ao falar de um templo escondido no lugar mais óbvio da cidade sugere os paradoxos constantes em sua arte e sugere também a conciliação das diversas séries de pintura convergindo para um só espaço.
Embora seja um jovem artista curiosamente Daaniel se afina com a arte tradicional, embora mantenha seu olhar no aqui e no agora, nos acontecimentos civis e no cotidiano da cidade. De certa forma ele se ombreia com os artistas da geração de 1960 nas mesmas bandeiras de luta: o enfrentamento da arrogância, a valorização do amor livre, o sarcasmo e a ironia dirigidos aos poderosos e conservadores aos quais enfrenta com a série de pinturas que tem como lema “O Medo é o Pai da Moralidade”. Daaniel é um contestador culto à moda da juventude parisiense que foi para a rua em 1968.
Designer gráfico formado em 2005 foi também publicitário, mas dedica-se à pintura desde 2011, tendo realizado exposições individuais como “Sobre o Vento e o Espalho”, no Festival de Inverno de Garanhuns e “Meu lugar”, no Festival Pai da Mata, ou ainda “O que me resta do ano”, realizada em seu ateliê. Participou também da coletiva de gravuras “Papelombra” no Espaço Cultural Peligro.
O foco na sensualidade marca sua produção e trás à luz o pensamento de sua geração sobre este tabu social que ainda encontra ecos nesta altura da civilização. Este veio temático tem na serigrafia “Já tive amores, agora é putaria mesmo” o ponto exato para o salto neste universo da sexualidade que se apoia no título da obra “O medo é o pai da Moralidade”, e marca pinturas e gravuras como “Masturbação”, “Vagina”, O beijo do mascarado”, entre outras.
Outro aspecto de seu trabalho se refere à crítica ao gerenciamento urbano do Recife como as questões da mobilidade urbana, ou ainda a metáforas referentes aos acontecimentos antiecológicos como o caso do Cais José Estellita que ele contesta através de pinturas e múltiplos como a pintura onde se vê um tubarão coberto de cifrões e a frase “ÁREA SUJEITA A ATAQUE DOS BARÃO”.
Outro tema recorrente é o coração, que ele plasma em vários contextos, como um recém nascido saído de um coação e um coração com a palavra PROCURA-SE.
Também é um pintor de quadros grandes, dos quais destacamos “Moça com pince”, “Cachorro Amarelo” e “Mulher na praia”.
Sobretudo ele é um pintor habilidoso que possui um cromatismo elegante quase sempre semitonado em marrons. Utiliza os suportes tradicionais como tela e papel, mas não se limita a eles, pinta sobre outros materiais como madeiras achadas ao léu onde ele deixa aparecer a fibra nas áreas não cobertas pela tinta. Ele experimenta xilogravura na oficina MAU MAU produzindo longa série de pequenas estampas, está produzindo um filme de animação onde os desenhos são pintados a óleo, e cria cartazes, serigrafias, imãs de geladeira e estêncis grafitados na cidade como um bebê engatinhando e um flanelinha com o rodo na mão e a frase “Também Quero Sonhar”.
Eis um artista inquieto e proativo, cujo olhar está sempre de vigia e a cabeça à espreita do próximo acontecimento, social ou pessoal, que excite sua vontade de compartilhar ideias. Um pintor urbano, sobretudo, identificado com o dow tonw, com as esquinas e as pessoas comuns da cidade.
Raul Córdula, setembro de 2015
A chave do tamanho
A consciência da oposição micro/macro levou Beto Viana a intitular sua primeira exposição individual de “A chave do tamanho”. Não é exatamente uma homenagem a Monteiro Lobato, é mais a revelação do mundo privado do artista que transforma matéria em signo, que vê o microscópio e o telescópio e também vê através deles o pequeno e o grande, como se fizesse parte do cotidiano a oxidação da tinta a óleo, as reações dos sais de prata na fotografia, a incompatibilidade da água com o óleo. Em tudo está um jogo de escalas, uma questão de tamanhos que não se revela, permanece oculto como um segredo do artista.
Beto Viana já possui uma trajetória de aprendizado e prática que extrapola o Recife, tendo transitado por Londres, Madri, Rio de Janeiro e São Paulo. De quatorze aos vinte anos ele foi orientado por Siron Franco, inclusive participando ativamente em Londres de uma série de pinturas e colagens e atuando no centro de uma performance que Siron mostrou naquela cidade, intitulada “doença da Vaca Louca”.
Frequentou as sessões abertas de desenho de modelo vivo que o Centro Cultural São Paulo oferece, onde teve como orientadora a artista Ely Bueno cuja orientação didática se baseava na Bauhaus. Beto também frequentou seu ateliê onde teve contato com a obra de Amélia Toledo, Mira Schendel, Mário Schenberg e Ligia Clark.
Na mesma época conheceu Mário Gruber com quem passou um ano estudando e trabalhando em seu ateliê. Com Mário Gruber nasceu o amor pela gravura em e este convívio lhe rendeu o aprimoramento na pintura que faz até hoje. A gravura permaneceu no seu cotidiano artístico, atualmente ele desenvolve a litografia sob a orientação de Hélio Soares na Oficina Guaianases de Gravura do Centro de Artes da UFPE.
Beto foi participar de um simpósio sobre técnica de pintura no Museu do Prado, Madri, com intenção de ficar dois meses, ficou um ano. Foi quando frequentou a Escola de Belas Artes da Universidade Complutense, estudando desenho, anatomia, escultura e gravura Na oportunidade conheceu artistas espanhóis de renome como Fernando Higueras, Ginés Liebana, e Antônio Lopes Garcia que o convidou para participar dos dois atelieres que ele orientava, em um deles Beto ganhou uma bolsa, e teve um quadro selecionado para compor o acervo do Palácio de Los Serranos da Caja de Avila.
De volta ao Brasil Beto participou de duas exposições coletivas, suas primeiras: uma no Memorial da América Latina e outra no Palácio dos Bandeirantes. Em 2007 mudou-se para o Rio de Janeiro onde conheceu José Celso Martinez Correia na produção do espetáculo “Os Sertões” dirigido por ele. Através dele conheceu Hélio Eichbauer, autor do cenário de “O Rei da Vela”, também dirigido por Zé Celso, obra fundamental de Oswald de Andrade, marco da dramaturgia brasileira e marco zero do tropicalismo no teatro.
Durante os seis anos que Beto viveu no Rio cinco foram frequentando as aulas de Hélio: no começo no Teatro Poeira, depois no Tom Jobim do Jardim Botânico e finalmente no Parque Lage. Ele diz: “Hélio abriu minha cabeça para o mundo, o mundo como uma leitura do mundo. Um dos homens mais eruditos que conheci”.
Os meios básicos para a produção artística se intercalam na sua produção atual, como o desenho, a pintura, e gravura e a fotografia. Em todos eles teve bons mestres como Siron, Mário Gruber, Antonio Lopes Garcia e Hélio Eichbauer. Quanto à fotografia ela tem sido base para as litogravuras recentes.
Esta exposição mostra o resultado da curiosidade, do interesse profundo de um artista pesquisador de mente aguda, perscrutadora que pinta com uma palheta de cores semitonada em busca do momento exato da escorregadela do pincel na tela. Sua obra é carregada de memória e de citações da pequena-grande história de quem decidiu ser pintor ainda adolescente – atitude de quem também é porta. Não é exatamente um contestador, como acontece com a maioria dos artistas de sua geração, é um cronista dos sentimentos que entram pelos olhos, passa pelo coração e se manifestam palas mãos.
Raul Córdula, setembro de 2015



