
ABISMO DA CARNE
Há muito, a iminência do gesto contorcia-se, escrutinava o assombro de sair da realidade. Rompeu-se o silêncio, e com ele as cicatrizes foram alargadas por escavar demais. Pensava que acordar era apenas enxergar o que estivesse ao seu alcance. Mas se para alcançar é preciso enxergar pela porosidade dos contornos e caprichos do que vemos, ou pensamos ver, como atravessar um mundo além do quarto escuro, que sempre acomoda a infância, a família, cheiros vividos, sons entremeados, santos devotados, o rigor dos sinos?
Passou a vagar pelos velos do ordinário, como se tudo fizesse parte de si, na esperança de enxergar melhor. Numa espécie de modulação de coexistência, passava o olhar pela textura das coisas, assim como a mão adere à pele do outro. Fez esse exercício várias vezes, sem saber muito bem onde encontraria a evidência daquele dito ordinário mundo ao nosso redor. Da ordem do simples, do comum, pedestre cotidiano. Do que se justifica por ser como é. Como se a natureza das cenas ordinárias fosse a certeza de reconhecê-las, porque sempre estiveram, estão ou estarão em algum lugar por entre nós.
Impregnado de perguntas, com seu olhar registrou o despudor em lampejos de gente, rastros, ruínas, falsos desejos ofertados. Andou e desandou pela carne. Foi um caminho não fabular a realidade, mas projetar nela sentimentos reais. Tentou quarar a vida pela fotografia. De si, de sua carne insular, passou a fugir para o espírito do outro. Através do universo fotográfico de Ricardo Labastier, os significados não despem apenas a representação. Ao contrário, mergulham no abismo da carne. Esbarram em aparições, além das aparências. Pois não seria nosso olhar o cadafalso a abrigar percepções em nosso imaginário? O abismo virou a prosa da busca em compreender vestígios de quem somos.
Georgia Quintas/Olhavê



