
Amiga me envia e-mail em que tenta desenhar a forma exata como tem se sentido: dentro de uma sala de espera bege, com revistas já lidas descansando em seu colo, olhando fixamente para um bebedouro pela metade e que já vai tarde. Há uma TV inutilmente ligada ali do lado e uma atendente que jura desconhecer quando essa quarentena toda vai passar. Minha amiga se levanta, olha o relógio, tenta ver se está chovendo através da persiana, caminha de um lado para o outro e acaba voltando, estática, à posição inicial.
O pior é que sabe que não está na expectativa de uma reviravolta específica ou de um resultado positivo/negativo. Algo dentro dela havia acionado a “sala bege” a habitar todos nós, que passa a funcionar quando acreditamos nas promessas de que vem chegando o verão, de que as férias são daqui a dois dias (“aguente firme”, avisa o refrão) e que a vida começa aos 40. Um oásis de tédio cercado por inúteis passatempos e contratempos por todos os lados, como naqueles livros de Kafka, em que os personagens estão subalternos à conclusão de um trâmite: querem se livrar de um procedimento penal, confirmar uma nomeação ou apenas acordar de sonhos intranquilos. Fantasias são sempre fantasias de uma conclusão, mas conclusão de quê mesmo?
A imagem proposta pela minha amiga me faz pensar que a espera é uma artista meticulosa, perfeitamente geométrica em suas formas, que nos posiciona num lugar injusto dentro no nosso próprio espetáculo. Ao acionarmos a “sala bege”, somos engolidos por paisagens de expectativas, reduzidos a um terço do quadro, ficamos ali do lado, para sempre fetais. Nesse desenho, talvez a vida não comece nunca. E desconfio que há gente demais vivendo à espera de que a vida comece, sem reparar que ela já vai pelo meio. Uma noite de reveillon eterna.
Talvez Edson Menezes seja hoje um artista a nos alertar quanto ao perigo da “sala bege”. Realiza um trabalho que confina seus personagens em cenários de expectativa, numa ansiedade tal que nem notam que, entre as 20 e 30 poses de espera, acabaram por deixar em branco o que havia no meio; saltaram logo para o final. E assim como nós, muitas vezes, eles escamoteiam a ansiedade com ilusórias cores quentes (cor = ilusão de ótica) e semblantes distantes. Desabitados, olham de lado ou nos atravessam com os olhos perdidos dos prisioneiros de calendários malucos, dos pagadores de promessas de previsões astrológicas. Prever é aprisionar.
Haveria um motivo bastante legítimo para minha amiga permanecer à espreita naquele consultório hipotético? Acreditar que a espera é filosofia, um passo que não precisamos dar. Enquanto a atendente decide a hora certa da minha amiga ser atendida, a vida acontece, seja lá o que isso for. Tenho esperança que ela, mais cedo do que tarde, decida tirar as revistas já lidas do colo, esqueça o relógio, a TV ligada, a intuitiva chuva lá fora e que vá embora. Ainda dá tempo.
Schneider Carpeggiani



