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Pretextos-Além do Paraíso.

30/Jul/2014 a 30/Ago/2014

Roberto Ploeg - Curadoria: Raul Córdula

Roberto Ploeg antes de ser artista era um teólogo que veio ao Recife em 1979 para pesquisar e escrever sua dissertação de mestrado sobre a Teologia da Libertação. Dom Hélder Câmara e o padre flamengo Eduardo Hoornaert o acolheram e orientaram. É conhecido o fato de que a substituição do bispado de Dom Helder por Dom José Cardoso foi uma estratégia para desmantelar em Pernambuco a ação desse grupo de teólogos e religiosos que desempenhavam sua missão religiosa em busca da justiça social, inspirada nas ações de Jesus Cristo em vida. A Teologia da Libertação encarnou a ação social e a reflexão teológica da Igreja Católica a partir da perspectiva do povo latino-americano empobrecido.

Porém Ploeg não desistiu de Pernambuco. Embora tivesse alguma experiência com pintura na Holanda foi quase por acaso que se entregou à arte ao frequentar os cursos de arte que funcionavam no Museu de Arte Contemporânea de Olinda nos anos de 1980. Desde então Ploeg começou a conviver com os artistas orientadores e com os estudantes como ele, artistas de renome hoje.

Esta exposição que a Arte Plural Galeria apresenta ao público pernambucano representa o amadurecimento da ideia de plasmar nas telas o ponto central da Teologia da Libertação: a religião é a sacralização da vida. Seu caminho para mostrar isto tem sido transformar em pintura cenas da vida contemporânea referindo-as a passagens das Escrituras Sagradas, preceitos e lendas bíblicas através de uma pintura realista, como técnica, e de uma poética visual como meio de expressar sua religiosidade.

O que vemos é a metáfora da revelação, as traduções realistas das epifanias, a aura sagrada fora do contexto das imagens religiosas – por um lado imagens idealizadas por quem crê, e por outro, imagens acumuladas por milênios de representações contidas na enorme iconografia religiosa judaico-cristã.

A novidade deste trabalho está no fato de ele lançar mão de temas religiosos clássicos pintados por mestres da pintura universal. Importante dizer que não são releituras das telas, o que ele faz é dialogar com Jan van Eyck, Massachio, Rembrandt, Courbet, Ensor, Klimt, Bacon e Hockney, através de referências múltiplas, seja uma pose, uma composição, um título, uma temática, um elemento visual ou um estilo de pintura.

Ploeg apega-se aos aspectos da vida, do aqui e do agora, e com isto recria a cena bíblica que interessou a artistas do passado e do presente. Tão pouco a ideia de originalidade perturba seu fazer, pois há inúmeros exemplos dessa forma de criar.

O que lhe interessa é esclarecer a condição humana diante da palavra de Deus, é interpretar de forma mais convincente a relação entre homem e divindade, é tocar na questão da verdade do ser humano diante do absoluto.

Deste modo nele se manifesta a possibilidade real das Escrituras Sagradas serem parte da humanidade em qualquer tempo e espaço. Além disso, Ploeg é um homem de fé que vivencia religiosamente sua arte, e persegue a ideia de que o homem é antes de tudo matéria divina e, por paradoxal que isto seja, evolui com Deus, a partir de Deus, nas possibilidades que Deus lhe oferece para atingir o infinito. Ele enfatiza, portanto, o homem fora do Paraíso como o homem verdadeiro, obra do Criador, e não o homem que almeja o Paraíso, o homem competidor, aquele que sempre lutará para se destacar, para ser melhor que o outro, para superar o outro.

Aprofundei-me nas ideias que norteiam a obra de Ploeg quando ele me deu para ler o poema de Olavo Bilac, Alvorada do Amor. Pude perceber que este poema traduz o sentimento oculto em todas suas novas pinturas. Bilac é um poeta parnasiano pouco citado no Brasil por aqueles que procuram na poesia algo além da forma, da rima, da métrica, talvez porque poucos fazem uma leitura de sua obra que vá além da academia. O que ele revela em A Alvorada do Amor, do qual citamos os versos fundamentais em seguida, é surpreendente:

E Adão vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

Chega-te a mim! Entra no meu amor,
E à minha carne entrega tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar do Amor, renovando o pecado!
Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te de uma em uma as lágrimas do rosto!

Vê tudo nos repele! Toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…

Amo-te! Sou feliz porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando teu corpo querido!

E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A natureza é tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!
Ah! Bendito o momento em que me revelaste

O amor com teu pecado, a vida com teu crime!
Porque livre de Deus, redimido do sublime,

Homem fico na terra, luz dos olhos teus,
Terra melhor que o Céu, Homem maior que Deus!

Na construção desta “epifania” Ploeg trabalhou no seu entorno pintando no seu sítio os seus filhos, seus amigos e os animais de suas criações: carneiros, ovelhas e cães rottweilers, as pessoas nas locações que lhe sugerem algum tema, e os modelos que trabalham para ele, como o artista contemporâneo Chico Ludemir e Xavana Celesnah.

Muito mais eu poderia dizer, mas deixo, o olhar das pessoas será tocado por algo mais do que descrições e comentários: pela descoberta e pelo encantamento.