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Guardada a pupila se abre ao luzeiro.

22/Mar/2016 a 07/Mai/2016

Rinaldo Silva - Curadoria: Alex Calheiros

Andando pelo meio do mundo e como pensamento no meio do céu.

A exposição intitulada “guardada a pupila se abre ao luzeiro”, de Rinaldo Silva, não é a junção de memórias que encontram, nas obras aqui expostas, uma forma simplesmente. Mas é, pela coerencia discursiva que ela impõe, uma meditação sobre o tempo e a história. Numa palavra, e no sentido mais alto que isso pode ter, poderíamos dizer que ela é uma alegoria filosófica, marcada por uma espécie de reencontro anacrônico. Um reencontro que é um reencontro com a infância, para evocar aqui uma imagem benjaminiana. Assim, esta exposição bem que poderia se chamar infância recifense, pois o tempo desta infância é, por assim dizer, o tempo que nos formou, e, por não pertencer somente a ele, e nem a nenhum de nós particularmente, provoca, de algum modo, nosso reencontro com os outros. Reencontro com uma dimensão coletiva, com uma dimensão que está verdadeiramente no espaço
do pensamento. Reencontro, diga-se logo, e especialmente aos saudosistas, desprendido daquele exercício da memória de gosto e alcance duvidoso, sempre esforçado em acentuar o pitoresco da experiência vivida e que promete um reconfortante, embora falso, apaziguamento da experiência dilacerante que é o escorrer do tempo. São memórias que asseguram aquele sentimento, por vezes nocivo, de pertencimento, como uma tentativa, ademais vã, como sabemos, de escapar da morte já instalada. Não é heroico, tampouco autocomplacente, o gesto empenhado do artista neste retorno que propõe ao recolher nos detalhes quase perdidos dos anos, um modo de criar para si uma narrativa, mas sem cair na tentação obsessiva da demonstração massacrante de uma razão classificatória da vida. Mas, ao contrário, elas contradizem, e de modo expressivo, este lento e encenado cortejo que nos transforma a todos em animais num abatedouro. O tempo no qual a memória de Rinaldo parece se inscrever está longe de representar um tempo de integridade totalizante, está longe de querer projetar, romântica ou narcisisticamente, o próprio eu nos materiais utilizados, como uma impressão solipsista da realidade apreendida. Nem fuga para dentro de si, mas, no entanto, também não é o seu exato contrário, o deslocamento proposto por Rinaldo, pois, embora privilegie um tempo fragmentário, de detalhes, de resquícios, de ruínas, é antes um tempo de miudezas. Não sendo classificatório e recenseador, remete-nos a uma relação fundada na poesia, multiforme e cheio de temporalidades. Não é, enfim, um tempo de decrepitude e degeneração, embora decrépito e degenerado seja o mundo, visto, assim, a olho nu. Justamente por isso Rinaldo foge dos lugares comuns, ao esforçar-se em descrever, de modo fantástico e lúdico, o espaço de nossas experiências. Devolvendo então à imaginação a tarefa árdua, mas aventurosa, da invenção e da criação da experiência.

Além do olho, ou seria melhor dizer do olhar, cena recorrente nas obras aqui presentes, são as cabeças. Já a primeira tela, sugestivamente chamada de “O pensador de muitas cabeças” e a principal escultura, intitulada “Diálogo com o pé”, espécie de paródia do pensador de Rodin, confirma um tom crítico na proposta do artista, pois o olhar e a cabeça são signos por excelência dessa modernidade regressiva em que vivemos mergulhados. Se a cabeça e o olho em nossa cultura se transformaram nos instrumentos justamente esquadrinhadores, matematizadores, classificadores, da realidade, para em seguida, metodicamente expô-la, as cabeças e olhos de Rinaldo dão lugar a um mundo múltiplo e infinito e inventado (por que não?). Contra o primado de uma cultura realista, a batalha de Rinaldo é aquela de subverter a realidade. Uma batalha que não mortifica, mas incita à indignação, à rebeldia, e à revanche, pela força da imaginação. Não se contenta em ver e pensar o mundo, mas em imaginá-lo diferente. A pintura de Rinaldo é uma utopia.
Está toda aqui a diferença fundamental dos trabalhos expostos, pois não são retratos do cotidiano e nem simplesmente memória afetiva. Inserido no cenário de guerra que se tornou
a experiência contemporânea, Rinaldo devolve a nós o elemento distópico necessário a uma relação com o mundo que não seja pragmática, utilitarista, estéril. Inscrito nessa dimensão efêmera, mas não evanescente, do tempo, o colorido sutil, tão pessoal de Rinaldo, devolve-nos a leveza, mas sem facilidades. Este tempo novo se apresenta como um eterno presente. Ou, um tempo, simplesmente. O olhar de Rinaldo é na verdade um alento. É o remédio para o veneno destes dias sombrios. O olhar moderno de Rinaldo é um olhar novo sobre Recife, mas que recusa as novidades já velhas de um sistema cruel e mortal. O olhar de Rinaldo é um olhar antigo sobre o Recife. Olhar imemorial e ancestral. Um olhar de fogo que forja um outro mundo diante de nós, fazendo-nos lembrar que somos, embora vencidos pelo mundo, como o príncipe poeta, pois feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos.

A marca fundamental que dá unidade às obras, muito experimental quanto as técnicas e aos materiais utilizados giram, justamente, em torno do universo infantil revisitado. São intervenções sobre materiais guardados, mais especificamente alguns exames escolares datados de 1967 e marcados com caneta, lápis de cor e giz de cera. São desenhos. Desenhos da professora, na tarefa ali de despertar na criança a capacidade de figurar o mundo, além de desenhos e interferências do jovem estudante no trabalho de colorir e continuar o desenho zhá novas intervenções, estas feitas agora, a uma distância de 50 anos. Está aí a prova do caráter inacabado e aberto da leitura que Rinaldo faz da experiência e da história.
Há outros ainda, criações atuais, óleo sobre tela, todos feitos em aguadas, nos quais o tema do olhar, ou de um olhar infantil, às vezes declaradamente, já que os desenhos ali expostos aludem à figura da criança, ou, ao menos, pela técnica, um modo infantil de lidar com os materiais está claramente sugerido. Seria, pra dizer de modo breve, o tema desta exposição, a busca por um olhar casto, ingênuo e límpido sobre o mundo.Translúcidas e coloridas, este mundo das coisas menores nas obras de rinaldo, ganham, agora, uma dimensão infinita e uma grandeza sublime. Sua pintura, especialmente, de aguadas abundantes e luminosidade litorânea, são transparência para o mundo.

Surpreende-nos o sabor fantástico destes trabalhos. Elementos fundamentais da experiência infantil, as obras aqui expostas nos evoca e nos reenvia para um lugar da experiência onde a imaginação é chamada a trabalhar, resgatando-nos de uma visão unidimensional da realidade e não há imagem mais próxima deste universo ligado à infância, ou seja, aberto e espontâneo, que essa relação livre com o corpo e o mundo. De fato, desaprendemos a ver o mundo com a cabeça e os olhos da imaginação.

Mas, não são apenas as cores e o traço livre e imaginativo sobre os materiais, primazia do desenho moderno como metáfora desse chamamento a um futuro absolutamente aberto, e por fazer, infantil por excelência, mas também o universo das batalhas imaginadas, com seus guerreiros chineses, suas armas que não ferem, adequados, agora, ao corpo do artista que brinca com seu próprio corpo, reinventando-o, reecontrando-o e reinscrevendo-o no corpo da memória lúdica. São Jorges. São seus guerreiros e são suas batalhas. Enfim, O ato desabusado de dialogar compé nos retira imediatamente da ordem e da seriedade que a vida adulta nos impõe como necessária e vital. Reconectado o pensamento ao chão da realidade, a exposição de Rinaldo é um jogo filosófico. Falando sério, esta exposição é uma brincadeira.

 

Alex Calheiros