
Christina Machado e Renato Valle: dois artistas que diferem formalmente mas se unem no conteúdo humano que lhes impulsiona. Eles abordam a condição de existir, de ir-e-vir entre o dentro e o fora, entre o eu e o outro. Há, porém duas formas de se ver o outro: com os olhos da memória ou com os olhos do agora. Ambos fazem esta viagem de dentro para fora, do passado para o agora.
Christina é uma artista multimídia diferente do desenhista categórico que é Renato. Ela se expressa em cerâmica, pintura, desenho, escultura, impressões gráficas e outras maneiras de plasmar sua criação. Eles resolveram fazer uma obra interativa que resultou em desenhos de Renato, que por sua vez partiu de um múltiplo de Christina, a escultura em cerâmica que evoca a obra de Klimt: um casal abraçado se beijando. Renato o desenhou em três versões com os títulos: “O beijo”, “Um abraço” e “O abraço” – sendo este último uma citação do filme “Ghost”.
Conheci a arte de Christina em Belém, numa das versões do salão “Arte Pará” que teve a curadoria de Marcus Lontra. Lá estavam obras da série “Vaginas”, que ela moldou em si mesma. Encontrei-a depois no Recife onde pude conhecer melhor seu trabalho. A referência ao corpo e a questão feminina que envolve sua obra se apresentam em tudo que faz. Uma de suas etapas criativas incluiu performance além de escultura. Chama-se “A pele é o que separa o corpo do mundo”. A cópia de seu corpo moldada em gesso foi colocada na beira praia de Tambaba no espaço onde as ondas quebram. A dissolução do gesso pela água salgada imitava nossa fatal volta ao pó. Esta passagem faz recordar um trecho do poeta paraibano Jomar Souto: “Eu vou jogar no mar o meu pé de sonâmbulo sozinho em cais perdido e dar ao mar o meu corpo que o mar pede.”. Isto nos faz refletir sobre a projeção da morte na vida.
Christina se refere em seu trabalho a “extremos”, como a oposição entre praia e Sertão, reflexo de sua vivência em Carnaúba dos Dantas, Seridó do Rio Grande do Norte, onde foi em busca de argila e malacacheta, o que me faz recordar outro poeta paraibano, Vanildo Brito, que pensa assim sobre o Sertão: “Amo a nitidez lunar de seus horizontes e a canção mineral de seus vales desertos.” Vemos que o mar e o Sertão se alternam em sua obra como o “eu” e o “outro”.
A essência desta criação permanece noutras etapas de seu trabalho e foi mostrada na exposição coletiva “Arte cerâmica contemporânea“ exposta no Espaço Cultural dos Correios no ano passado, onde ela mostrou de novo o molde de seu corpo, desta vez em argila crua onde o mato brotava, com o titulo “Não tenho mais coração, tenho a natureza dentro de mim”. Trata-se de uma instalação onde estão também boias carimbadas com seu ícone do coração e placas que sugeriam gavetas de ossuários com as palavras NÓS TU ELES NÓS VÓS ELES. Daí nasceu o sentido do que aqui se mostra, o interesse pela equação Eu + Tu = Nós, que desabrocha em visões do outro.
O que Christina mostra nesta exposição se compõe das esculturas que justificam a citada equação completada com seu trabalho artístico cotidiano presente nas pinturas com argila e tinta, os retábulos de barro repletos de figuras do imaginário local e a série de autorretratos desenhados, mostrados ao lado de um molde de sua cabeça.
É natural que se leia um desenho como os de Renato Valle, pois nele encontramos signos visuais a narrar seu passado ou a propor novos olhares. Sua cabeça organizada propõe roteiro: herança, memória, plantação e colheita. No território da herança está a memória da infância com as lembranças de fatos e passagens dos seus pais, como a agulha de crochê que Dona Maria, sua mãe, usava, e que é como ele diz, um instrumento “carregado de muitas histórias”. Esta agulha participa da elaboração de grande parte de seu políptico “Memórias de uma agulha de crochê e outras memórias”, formado por trezentos e oitenta e quatro desenhos, medindo cada um 8X8 centímetros. Uma constelação de pequenos sinais que são pistas de sua memória e de outras imagens preservadas por seu inconsciente. Com a agulha ele risca a superfície do papel e estes riscos produzem sulcos que são cobertos de grafites de várias durezas, revelando aquilo que foi riscado cegamente, que se contrasta com as superfícies escurecidas, pois o grafite não penetra nos sulcos, deixando-os contornados de brancos. Lembra-me a questão dos valores na gravura, especialmente na xilogravura onde se retira da superfície da madeira o que é negativo, ou branco no caso de uma matriz, possibilitando a impressão dos planos gravados.
Outro políptico formado de nove desenhos se chama “Jogos de memória”. Nele as figuras se referem diretamente à mãe e ao pai, como o rosto de uma senhora que abre a série, uma mão em súplica, um torso de mulher vestido com um corpete desenhado por pontos de crochê, a imagem da Virgem, o carro antigo do pai, o carrinho de rolimã, a bomba “Peido de véia” que soltava no São João, mas embalada com papel de jornal onde estão sugeridos fatos como a procura de Zuzu Angel por seu filho assassinado pela ditadura ou o jargão nacionalista-militar “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Segue-se à série a figura de um feto quase nato, e a imagem de seu pai. Nada mais confessional, nada mais íntimo se pode esperar de um artista da densidade de Renato Valle. Mas sua participação continua em três desenhos verticais onde o traço da agulha se mantem: “Totem”, “Bordado” e “Ex-voto”. Continua com desenhos maiores de figuras: “Perfil”, uma figura de mulher, e “Goooollll”, o rosto de um homem gritando este desabafo de alegria num estádio de futebol.
Encerramos este périplo com outro desenho que interpreta a obra de Christina, “Oferenda”, que parte do desenho de um coração que ela realizou primeiramente como lambe-lambe, termo que apelidava os fotógrafos de retratos que trabalhavam na rua, e que na arte de agora apelida um cartaz utilizado indistintamente sobre as paredes da cidade. Este coração teve ao longo do tempo, várias outras versões, entre elas uma tatuagem que Cristina aplicou em si mesma e passou para alguns amigos.
Eis dois artistas que são opostos no que fazem e próximos no que pensam. Dois artistas que representam nossa arte atual em sua mais pura e verdadeira versão.
Raul Córdula



